Nesta segunda Tertúlia Alphalink do ano, recebemos José Maria Lobo de Carvalho, arquiteto e fundador da Conservation Practice, para uma conversa prática sobre conservação e restauro, decisões difíceis em edifícios históricos, e os desafios cada vez mais complexos do licenciamento do património em Portugal.
Entre histórias de obra, exemplos reais e uma perspetiva muito clara sobre o setor, ficou uma ideia transversal: salvaguardar património não é congelar a cidade. É gerir a mudança com bom senso, método e responsabilidade.
Do percurso ao património: formação, inventário e “carta de risco”
José Maria Lobo de Carvalho começou por contextualizar o seu percurso e a forma como se aproximou da conservação do património, cruzando formação em arquitetura com experiências que o levaram a olhar o património de forma mais pluridisciplinar.
Um dos capítulos marcantes do seu trajeto foi o trabalho ligado ao inventário do património e a projetos de mapeamento, incluindo a “carta de risco”, uma abordagem que procura relacionar o risco do património com fatores do território e do contexto, para apoiar a definição de prioridades de intervenção quando há muito património e poucos recursos.
Quando o património precisa de exemplaridade: a experiência em Sintra e o Chalé da Condessa d’Edla
A conversa passou também pela experiência em Sintra, num contexto em que o património exige uma gestão exigente e altamente visível, com pressões reais: turismo, conservação, intervenção técnica, imagem do lugar e escrutínio público.
O exemplo do Chalé da Condessa d’Edla foi abordado como um caso onde o restauro obriga a decisões complexas, incluindo dilemas éticos típicos da conservação: o que repor, o que preservar como testemunho do tempo e dos acontecimentos, e onde está o limite entre restauro e suposição.
O que faz, afinal, a Conservation Practice: especialização e equipa pluridisciplinar
Ao falar da criação da Conservation Practice, José Maria foi direto: a empresa nasce com um posicionamento claro, focado em projeto e consultoria para edifícios históricos, sem desviar o seu ADN para áreas onde não faz sentido perder especialização.
A sua abordagem assenta numa ideia simples, mas exigente: em património, os estudos e decisões ganham credibilidade quando são feitos com equipas técnicas qualificadas, com contributos efetivos de diferentes áreas, em vez de uma única pessoa tentar ser “especialista de tudo”.
Relatório prévio e tomada de decisão: informar sem complicar
Grande parte da conversa tocou num tema muito concreto para quem trabalha em reabilitação: o relatório prévio.
A utilidade, aqui, não está em produzir um documento “bonito de ler”. Está em ajudar a responder, com clareza, às perguntas que desbloqueiam um projeto:
- O que existe, afinal, neste edifício
- O que pode ser alterado e o que não deve ser mexido
- Que valores são intangíveis (históricos, sociais, conceptuais) e quais são tangíveis (materiais e físicos)
- Que limites fazem sentido, quando o programa e a viabilidade entram na equação
É uma lógica orientada à decisão: estudar para reduzir incerteza, e não para empurrar complexidade para a fase de obra.
BIM e comunicação visual: o “modelo valorativo” como road map do projeto
Um dos pontos mais práticos e distintivos da tertúlia foi a forma como a Conservation Practice traduz informação complexa em comunicação clara.
José Maria explicou o uso de um modelo tridimensional “valorativo”, com uma leitura por cores, para mapear o edifício e permitir que qualquer interveniente, mesmo sem ler tudo, consiga perceber rapidamente onde estão as zonas mais sensíveis e onde pode haver margem para intervenção.
É uma ferramenta que funciona como road map para projetistas, dono de obra e entidades, ajudando a alinhar expectativas e a reduzir ruído ao longo do processo.
Licenciamento do património: o problema deixou de ser só técnico. Passou a ser previsibilidade
A tertúlia entrou também no impacto das mudanças recentes no ecossistema institucional, com a extinção da DGPC e o atual modelo que envolve CCDR e outras entidades.
O ponto central não foi “quem tem razão” no desenho institucional. Foi outro, bem mais operacional: quando o sistema perde previsibilidade, o projeto perde rumo, os prazos deixam de ser defensáveis e a tensão aumenta para todos os lados.
E quando a previsibilidade desaparece, os agentes económicos e técnicos ficam presos num ciclo de pedidos, revisões e exigências sem decisões claras no fim do processo.
Programas como o Revive: potencial, limites e a pergunta que fica no ar
O Revive surgiu como tema com uma visão pragmática: a lógica de concessão pode ser um caminho relevante para recuperar património que o Estado não consegue manter sozinho.
Mas José Maria levantou também um ponto crítico: a recuperação do património não tem de acabar sempre no mesmo destino. Num país com carência real de habitação e necessidades sociais evidentes, vale a pena pensar se os modelos de reutilização não podem ser mais diversos, equilibrados e alinhados com o tempo em que vivemos.
O futuro da conservação e restauro: gerir a mudança sem perder as raízes
A tertúlia terminou com uma reflexão sobre futuro: vivemos um tempo acelerado, cada vez mais intangível, e isso torna o património ainda mais relevante como referência e âncora.
O desafio está no equilíbrio: manter referências e identidade, sem cair no congelamento, garantindo ao mesmo tempo conforto, segurança, acessibilidade e condições de vida compatíveis com o presente.
Porque, no fim, conservar património é isto: gerir a mudança.
Este será mais um ano com várias Tertúlias Alphalink, momentos de conversa e partilha com protagonistas do setor da construção e da reabilitação que consideramos essenciais para aprendermos, crescermos e melhorarmos.
Como sempre dizemos…
É muito bom ouvir pessoas inteligentes a pensar!