A preparação de obra

Neste episódio do Pergunta ao GP?, Inês Feio responde a várias questões sobre A preparação de obra:

  • O que é a preparação de obra?
  • Porque é que este tema gera tanta discussão?
  • A preparação de obra valida os pressupostos do projeto?
  • A preparação de obra pode ou não fazer ajustes ao projeto?
  • A preparação de obra pode definir o que ficou por definir em projeto?
  • E a compatibilização, isso é preparação de obra ou é projeto?
  • O que é que devemos fazer na prática?

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Transcrição

A preparação de obra é um tema que parece simples, mas que na prática gera muitas dúvidas. É uma expressão que toda a gente usa como se fosse evidente, projetistas usam, empreiteiro usa, dono de obra, até fiscalização, mas muitas vezes cada um está a falar de uma coisa diferente. E é precisamente esse o problema e aquilo que vimos desvendar neste episódio.

Porque quando não há um entendimento claro sobre o que cabe à preparação de obra, começam a aparecer zonas cinzentas. Essas zonas cinzentas acabam quase sempre em atrasos, pedidos de esclarecimento, discussão sobre responsabilidades e conflitos que podiam ter sido evitados.

O que é a preparação de obra?

Quando falamos de preparação de obra, há uma ideia base e relativamente consensual. A preparação de obra, na sua função mais básica, é um processo interno do empreiteiro, ou seja, serve para pegar nos vários projetos, organizá-los e transformá-los em informação executável para cada frente de trabalho.

Ou seja, um projeto, tal como é produzido pelos projetistas, raramente pode ser entregue diretamente aos executantes, neste caso os subempreiteiros, em condições de ser usado diretamente, sem este trabalho intermédio de estruturação dos desenhos. Um eletricista, por exemplo, não trabalha só com o projeto de eletricidade, precisa também de perceber a arquitetura, a estrutura, os tetos, acabamentos, cotas e interferências com outras especialidades para instalar tudo no sítio certo.

Portanto, o preparador acaba por fazer um bocadinho este trabalho de reunir todos estes elementos e entregar depois ao eletricista para que ele consiga executar já coordenado com todas estas variáveis.

Portanto, para esta dimensão mais essencial, a preparação da obra é este trabalho de pegar na informação do projeto e traduzi-la em algo executável.

Porque é que este tema gera tanta discussão?

Porque à volta desta discussão mais básica, ou até óbvia da preparação da obra falado anteriormente, aparecem outras tarefas que já não são tão consensuais. Por exemplo, validar se os pressupostos de projeto estão ou não corretos, adaptar ou não o projeto à realidade encontrada na obra, desenvolver ou não os pormenores construtivos, verificar compatibilidades entre especialidades, ou até detectar erros, problemas técnicos, etc.

Costumamos utilizar como analogia na Alphalink, uma cebola, em que temos um núcleo, que é o núcleo da cebola, e depois à medida que nos vamos afastando desse núcleo vamos tendo várias camadas cada vez mais finas, neste caso, no centro, temos o que está realmente, e o que é claro, como definição de preparação de obra, e à medida que nos afastamos desse centro, mais entramos em camadas cada vez mais discutíveis e muitas vezes em zonas cada vez mais cinzentas.

A preparação de obra valida os pressupostos do projeto?

Aqui a resposta é muitas vezes que sim, sobretudo em reabilitação. Em projeto assumem-se muitas coisas sobre o existente que só são possíveis de confirmar muitas vezes depois de estarmos em obra.

Por exemplo, quando se abre um teste falso, se remove um revestimento ou quando se encontra qualquer coisa que estava escondida. E, neste momento, a preparação da obra tem um papel fundamental, que é o de confrontar o projeto com a realidade. Confirmar medidas, verificar pressupostos e lançar pedidos de esclarecimento ou de alteração e fazer os devidos ajustes.

Isto não quer dizer que a preparação de obra substitui o projeto, mas significa que, em muitos casos, a preparação de obra pode e até deve funcionar como um processo de validação prática dos pressupostos do projeto, sobretudo em contextos de obras em que nem tudo é previsível à partida.

A preparação de obra pode ou não fazer ajustes ao projeto?

Até certo ponto sim, mas é preciso perceber que tipo de ajustes é que estamos a falar. Pequenos ajustes ou afinações são normais e fazem parte do processo construtivo, sobretudo quando dependem do sistema construtivo, do fornecedor ou até do executante. Isto faz sentido, por exemplo, em caixarias, carpintarias e outros detalhes que dependem muito de quem vai fabricar e montar.

Para nos ajudar a perceber esta linha ténue entre os ajustes que devem ser feitos pela preparação e o que já devia ter vindo ajustado do projeto, nós costumamos usar um critério bastante útil na Alphalink, que é: se o desenho de preparação precisar de aprovação do projetista, então muito provavelmente esse desenho já devia ter sido feito em projeto.

A preparação não tem de assumir decisões que nunca chegaram a ser tomadas em fase de projeto.

A preparação de obra pode definir o que ficou por definir em projeto?

Aqui entramos mesmo numa zona cinzenta e numa camada cada vez mais fina da cebola.

Há casos em que certas definições ficam deliberadamente para a fase de preparação. Isto pode acontecer por diversos motivos. Há casos em que o projetista não detalha porque o detalhe depende da entidade executante. Há outros que o cliente ainda não fechou uma decisão. Há também casos em que simplesmente se empurram em definição para a obra, mas a preparação não deve ser usada como desculpa para adiar essas decisões de projeto, como alinhar estereotomias de pavimentos, ou rever iluminação, ou equipamentos só quando aparecem as plantas de teto, por exemplo.

Portanto, para isto funcionar bem, há uma condição que é essencial. Se certas definições vão ficar para a preparação, tem de estar assumido, explícito, claramente desde o início. Caso contrário, criam-se zonas cinzentas e discussões que poderiam ser evitáveis.

E a compatibilização, isso é preparação de obra ou é projeto?

Isto é preparação ou projeto? Esta é uma pergunta relativamente sensível e aqui é importante distinguir duas coisas.

Uma coisa é compatibilizar o projeto, outra coisa é verificar a compatibilidade do projeto na ótica da execução. A responsabilidade de entregar um projeto compatibilizado é sempre dos projetistas. A obra pode e deve até verificar a compatibilização e levantar os conflitos que entenda necessários, até porque há incompatibilidades que só conseguimos ver quando alguém olha para o projeto a partir dos olhos de quem vai executar.

Mas detectar uma incompatibilidade e sinalizá-la não é o mesmo que assumir a responsabilidade de compatibilizar tecnicamente o projeto. Quando a preparação detecta incompatibilidades, indefinições ou problemas técnicos, o papel do empreiteiro é sinalizar e formalizar, através de pedidos de esclarecimento, propostas de alteração ou outros.

Mas se a solução implica rever a solução, alterar detalhes construtivos, mexer no conceito, então isto já não pertence à preparação de obra, mas sim ao projeto.

O que é que devemos fazer na prática?

Como vimos, não existe uma definição muito clara nem universal de preparação de obra. O pior que podemos fazer é assumir que toda a gente entende a mesma coisa.

Antes de começarmos a obra, é fundamental sentarmos os projetistas, a gestão de projeto, o dono de obra, a fiscalização, o empreiteiro e definir neste projeto em concreto o que é que a preparação vai ou não fazer.

Em bom rigor, é preciso dizer claramente daqui para a frente a preparação vai fazer X, Y ou Z. Não interessa assim tanto encontrarmos uma verdade absoluta sobre a definição de preparação de obra, interessa sim defendermos o projeto e clarificar onde é que acaba a responsabilidade de uns e começa a dos outros. Porque se partirmos todos do mesmo entendimento, evitam-se leituras diferentes, expectativas erradas e protege-se muito melhor o projeto.

No fundo, se tivermos de resumir tudo numa só ideia: a preparação de obra tem um núcleo muito claro e até relativamente indiscutível, mas à volta deste núcleo há várias zonas cinzentas que precisam de ser definidas antes da obra começar.

A pergunta certa não é quem tem razão relativamente à definição do conceito de preparação de obra. A pergunta certa é como é que definimos responsabilidades de forma a proteger o projeto.

A nosso ver quando essa fronteira fica logo clara na contratação e no arranque da obra, ganha o projeto, ganha a obra e toda a equipa.

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