Engenharia acústica: o que falha entre o projeto e a obra? Tertúlia com Carlos Penedo, fundador da TONAL

Engenharia acústica: o que falha entre o projeto e a obra? Tertúlia com Carlos Penedo, fundador da TONAL

A acústica raramente se vê. Mas sente-se, sobretudo quando falha. Foi precisamente sobre essa distância entre o que se projeta e o que se constrói que  se desenrolou a mais recente Tertúlia  Alphalink.

À conversa com Carlos Penedo, fundador da TONAL – Engenharia Acústica, rapidamente percebemos que muitos dos problemas não estão na falta de soluções, mas na forma como estas chegam, ou não, à obra.

Uma especialidade que só se nota quando falha

A engenharia acústica tem uma característica particular: grande parte do seu trabalho é invisível para quem usa o edifício. Quando tudo corre bem, ninguém pensa muito no assunto. Quando corre mal, o impacto é imediato.

E porque é que corre mal? Ao longo da conversa, surgiram exemplos concretos: soluções definidas em projeto que não são executadas, falta de articulação entre especialidades e decisões em obra que acabam por comprometer o desempenho acústico. 

Isto acontece por uma razão estrutural.

O projeto de acústica depende dos outros projetos

O projeto de acústica, como explicou Carlos Penedo, é prescritivo, ou seja, não se executa por si só. Indica o que deve ser feito, mas depende de outros para ser concretizado, nomeadamente da arquitetura, das especialidades e, no fim, da própria obra. 

É neste cruzamento que surgem muitas das falhas. A própria forma como o trabalho é contratado ajuda a explicar parte desta realidade. A maioria dos projetos, cerca de 90 a 95%, é feita em regime de subcontratação, o que conduz muitas vezes a menos contacto direto com o cliente final, a uma comunicação mediada e a menor controlo sobre o que acontece depois de o projeto estar entregue.

Quando a informação se perde entre projeto e obra

Um dos temas mais interessantes da conversa foi a passagem do projeto para a obra.

Carlos Penedo explicou que o ideal seria existir uma verificação cruzada entre especialidades, garantindo que as soluções acústicas previstas são efetivamente integradas nos restantes projetos. 

Na prática, isso nem sempre acontece. Há soluções que estão no projeto de acústica, mas que não aparecem nos desenhos de arquitetura, e detalhes técnicos que não chegam ao mapa de quantidades e há decisões que só são percebidas quando a obra já está demasiado avançada.

E depois há momentos críticos, como o fecho dos tetos falsos. Se forem fechados antes de uma verificação adequada, podem ficar escondidos problemas que mais tarde já serão muito difíceis de corrigir.

Mais exigência, mais sensibilidade e mais responsabilidade

A acústica está regulamentada em Portugal desde os anos 80, mas a sua aplicação mais consistente nos edifícios tornou-se mais evidente a partir dos anos 2000.

Hoje, o contexto é diferente. Há mais informação, maior sensibilidade dos utilizadores e uma perceção mais clara do direito ao conforto acústico. Ao mesmo tempo, certificações como BREEAM, LEED ou WELL também têm vindo a trazer maior exigência para alguns projetos.

Mas essa exigência só se traduz em qualidade quando existe coordenação.

O papel do gestor de projeto

É aqui que entra o papel do gestor de projeto, como a Alphalink. Na prática, facilitar o trabalho da acústica passa por garantir que a especialidade entra no momento adequado, que a informação fica registada, que as soluções não se perdem entre documentos e que há verificações antes de decisões irreversíveis em obra.

No caso da acústica, isso pode significar algo tão concreto como não fechar tetos antes de confirmar se as paredes, passagens técnicas e soluções previstas estão realmente executadas como deviam.

Da música à engenharia acústica

Este olhar muito orientado para a componente prática resulta de um percurso construído no terreno.

Carlos Penedo formou-se em engenharia mecânica, com uma ligação próxima à música, e iniciou atividade na área da acústica em 2003. Numa altura em que a formação específica era limitada, o desenvolvimento fez-se sobretudo através da prática, da leitura e da experiência acumulada.

Depois de 16 anos numa empresa do setor, decidiu avançar com um projeto próprio e fundou, em 2019, a TONAL. A empresa cresceu de forma progressiva e conta hoje com uma equipa de oito pessoas, mantendo o foco nos estudos e projetos de engenharia acústica para edifícios.

Esta é uma área importante, mas com poucos especialistas em Portugal. Segundo Carlos Penedo, existem pouco mais de três dezenas de especialistas em acústica reconhecidos pela Ordem dos Engenheiros, o que mostra bem a especificidade desta área.

É uma especialidade técnica, exigente e ainda pouco visível, mas cada vez mais importante para a qualidade dos edifícios.

O que levamos desta tertúlia

A conversa mostrou que a acústica não pode ser tratada como um documento isolado no processo de projeto. Para funcionar, tem de estar integrada, coordenada e acompanhada até à obra.

Quando isso não acontece, o problema raramente está numa única decisão. Está na cadeia: na comunicação, na compatibilização, no momento em que a especialidade entra, na forma como a informação circula e na atenção que se dá aos detalhes antes de ser tarde demais.

É precisamente por isto que estas conversas são importantes para a Alphalink: ajudam-nos a compreender melhor o trabalho, as dificuldades e as decisões que moldam os projetos no terreno.

Porque…

É muito bom ouvir pessoas inteligentes a pensar!

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