Guilherme Carrilho da Graça: “Eu faço projetos, não faço milagres”. Tertúlia com o fundador da Natural Works

Guilherme Carrilho da Graça: “Eu faço projetos, não faço milagres”. Tertúlia com o fundador da Natural Works

“Metade do que eu digo é irónico.” O aviso chegou logo nos primeiros minutos e convém levá-lo a sério, porque a outra metade é das coisas mais certeiras que já ouvimos sobre energia em edifícios.

Guilherme Carrilho da Graça, físico de formação, professor na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e fundador da Natural Works, gabinete de projeto de instalações e sistemas energéticos, foi o convidado da mais recente Tertúlia Alphalink. Às 7h30, como de costume, e com hora e meia de conversa que pareceu bem menos.

Para que serve, afinal, um edifício?

A pergunta parece ingénua, mas foi por aí que ele começou. A resposta: construímos para modificar o ambiente exterior e criar, cá dentro, condições melhores do que as da rua. O conforto, a segurança e a acústica vêm daí. E também o consumo de energia, que antes simplesmente não existia.

Os números dão escala ao problema. Os edifícios pesam quase um terço nas emissões que estão a mudar o clima, sobretudo pela energia que gastam em uso e, numa parte menor, pelos materiais com que são feitos. E há um fator que raramente entra na conversa: o sítio onde se constrói. Uma universidade “sustentável” num local lindíssimo, mas onde toda a gente tem de chegar de carro, deita fora num instante a eficiência que o edifício poupou.

Também convém não meter tudo no mesmo saco. Em Portugal, uma casa bem isolada e com estores pode viver sem arrefecimento. Um escritório, uma escola ou um centro comercial não, porque geram tanto calor lá dentro que estão quase sempre mais quentes do que a rua. No inverno, o problema resolve-se com relativa facilidade. É no verão que as coisas se complicam.

Seis semanas de calor numa sala de aula

As escolas foram o exemplo que mais tempo ocupou. Pelas contas de Guilherme, há hoje o dobro dos dias quentes durante o período escolar face aos anos 40. Simplificando, três semanas de calor passaram a ser seis. E quando uma sala ultrapassa os 26 graus, a vontade de aprender cai a pique. A de aprender matemática, então, nem vale a pena falar.

A ironia não lhe escapou. Somos uma sociedade que liga o ar condicionado no escritório, em casa e no carro, mas que continua a discutir se as salas de aula precisam de arrefecimento. O pedido que deixa a quem defende escolas sem AC é simples: que, por solidariedade com os miúdos, não o liguem quando vão de carro.

A ventilação natural e as suas desilusões

Pelas medições que tem feito, a ventilação natural consegue poupar uma fatia importante do arrefecimento num edifício de serviços, na ordem dos 30%. Bom, mas longe de dispensar sistemas.

A área de abertura também tem mitos. Janelas de abrir equivalentes a 2% da área do pavimento, bem distribuídas, já fazem muito. Passar dos 10% é outra conversa: “já estamos na rua”. E a rua, lembrou, é precisamente aquilo de que um edifício nos devia proteger.

Sobre a ventilação cruzada, de um lado ao outro do edifício, o conselho foi taxativo: “fujam disso a sete pés”. Num escritório ninguém quer correntes de ar e papéis a voar. A ventilação de um só lado é mais modesta e, por isso mesmo, funciona melhor. Outra regra de ouro: nunca projetar a contar com o vento, porque há dias em que ele não aparece.

A cidade também complica. Abrir uma janela na Fontes Pereira de Melo ou na Avenida da Liberdade é deixar entrar ruído e partículas finas, que Guilherme compara ao efeito de fumar. Há boas notícias no horizonte: com menos carros a combustão, as cidades podem ficar bem mais limpas dentro de uma década. E as alterações climáticas estão a mudar a época em que a ventilação natural mais ajuda, que tende a começar mais cedo, por volta de março.

No meio de tantos números, ficou uma frase simples: Um edifício que funciona é aquele que não se mete no caminho de quem lá está.

Dez promessas verdes à prova de contas

O momento mais divertido da manhã foi também o mais revelador. Guilherme foi à internet, escolheu ao acaso um edifício apresentado com dez características sustentáveis e pôs cada uma à prova.

Os painéis fotovoltaicos na cobertura? Chegam para alimentar um escritório, desde que este tenha piso e meio de altura. O isolamento ao nível Passive House? Faz todo o sentido numa casa e é pena que não tenha pegado em Portugal, mas num edifício de serviços tem pouco a acrescentar. A madeira? Corta para cerca de metade a energia da construção, o que no conjunto da vida do edifício representa uma redução na ordem dos 10%. Ótimo, mas longe da “armadilha de carbono” que se anuncia. A luz natural? Cria espaços magníficos, mas, sozinha, não poupa energia. Pode até gastar mais.

Nada disto quer dizer que estas soluções não valham a pena. Quer dizer que valem menos do que prometem.

A roda reinventada em cada obra

A construção é das poucas indústrias que quase não ganhou produtividade nas últimas décadas. Numa obra, diz Guilherme, a grande novidade são o capacete, o colete e as botas. O resto parece igual.

Para ele, uma das causas é a obsessão com o fazer cada edifício à medida. Uma escola devia partir de salas de aula padrão, testadas e afinadas, e deixar a personalização para a relação com o terreno. Em vez disso, cada projeto volta a discutir onde ficam as janelas, que forma deve ter a sala e se o professor consegue ver o projetor.

E há um incentivo que joga contra a eficiência. Os projetistas de instalações são, muitas vezes, pagos em função dos equipamentos que colocam no edifício. Pensar num edifício que precise de menos máquinas dá trabalho, mas ninguém o paga.

O papel do gestor de projeto

Houve uma ideia que voltou várias vezes ao longo da manhã: as boas soluções perdem-se com facilidade pelo caminho.

Foi isso que levou Guilherme a passar da consultoria ao projeto. Quando fundou a Natural Works, fazia apenas consultoria e percebeu depressa que as suas recomendações raramente chegavam à obra. Fazer projeto dava-lhe mão nas decisões e, com isso, responsabilidade.

O que nos leva ao papel do gestor de projeto:

  • Pôr números nas promessas de sustentabilidade antes de se tornarem compromissos;
  • Proteger as decisões que sustentam o conceito energético, para que não caiam a meio do processo;
  • Ajudar a encontrar o ponto de equilíbrio entre a ambição do projeto e aquilo de que o edifício precisa para funcionar;
  • Pôr projetistas e empreiteiro a falar a tempo de as soluções serem construídas como foram pensadas.

Um bom exemplo na Fontes Pereira de Melo

Entre os casos que correram bem, Guilherme destacou o FPM41, a torre de escritórios na Avenida Fontes Pereira de Melo desenhada pelo atelier Barbas Lopes. A fachada responde à orientação solar, com mais vidro a norte e mais superfícies opacas onde o sol aperta, e tem aberturas de ventilação natural integradas na parte metálica. “Nós não abrimos janelas, abrimos fachada em metal.”

O que levamos desta tertúlia

Que não há soluções milagrosas, e que quem as promete raramente fez as contas. Que cada medida sustentável tem um impacto real, mas limitado, e só funciona quando pensada em conjunto com as outras. E que muitas boas ideias não morrem por falta de conhecimento, mas porque ninguém as defendeu entre o concurso e a obra.

É precisamente por isto que estas conversas são importantes para a Alphalink: ajudam-nos a compreender melhor o trabalho, as dificuldades e as decisões que moldam os projetos no terreno.

Porque…

É muito bom ouvir pessoas inteligentes a pensar!

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