Maria Rosa Abeijon: “Hoje, os escritórios já não servem apenas para trabalhar. Precisam de justificar porque vale a pena estar lá.”

Maria Rosa Abeijon: “Hoje, os escritórios já não servem apenas para trabalhar. Precisam de justificar porque vale a pena estar lá.”

Na mais recente Tertúlia Alphalink, recebemos Maria Rosa Abeijon, da Nokia Real Estate, para uma conversa sobre workplace, gestão de mudança, cultura organizacional e a transformação dos espaços de trabalho nas grandes empresas.

Mas a conversa acabou por ser muito mais do que isto. Falou-se de comportamento humano, da dificuldade em mudar organizações, da forma como diferentes culturas trabalham e tomam decisões, e da crescente ligação entre espaço, colaboração e produtividade.

No fundo, falou-se daquilo em que muitos projetos falham: não na construção do espaço, mas na forma como as pessoas o vivem.

O escritório deixou de ser apenas um sítio para trabalhar

Uma das ideias mais fortes da tertúlia foi precisamente esta: o escritório perdeu a função que tinha há alguns anos.

Segundo Maria Rosa Abeijon, hoje já não faz sentido pensar o espaço apenas como um local onde as pessoas “vão trabalhar”. Grande parte do trabalho individual pode ser feita em qualquer lado.

A grande questão passou a ser outra, e é desafiante: porque é que alguém deve deslocar-se ao escritório?

Ao longo da conversa, explicou que o espaço físico passou a ter um papel muito mais ligado à colaboração, à criatividade, à aprendizagem e à cultura das equipas.

Ou seja, o escritório deixou de ser apenas operacional para passar a ser relacional.

“Together together” e “alone together”

A tertúlia trouxe também uma reflexão interessante sobre trabalho híbrido e a forma como as empresas estão a tentar encontrar equilíbrio entre presença física e flexibilidade.

Maria Rosa referiu conceitos utilizados internamente em algumas organizações:
“together together” e “alone together”.

A ideia é simples: há momentos em que faz sentido estarmos juntos para colaborar, discutir, decidir ou criar, e há outros em que o trabalho individual pode perfeitamente acontecer fora do escritório.

O problema, explicou, é que muitas empresas ainda estão a tentar perceber qual é esse equilíbrio. Porque a questão nunca foi apenas “voltar ao escritório”, a questão é perceber: o que ganha realmente uma equipa quando está junta?

O maior desafio não é técnico, mas sim humano

Outro dos temas mais relevantes da conversa foi a resistência à mudança dentro das organizações. 

Ao longo da tertúlia, Maria Rosa Abeijon explicou que transformar um espaço de trabalho implica quase sempre transformar comportamentos:
hábitos, rotinas, formas de comunicação e até expectativas das equipas.

E deixou uma ideia particularmente importante: muitas vezes, os maiores bloqueios não são técnicos nem financeiros. São humanos.

Foi também nesse contexto que falou da dificuldade de implementar mudanças em organizações globais, onde diferentes culturas, geografias e formas de trabalhar coexistem ao mesmo tempo.

Trabalhar em multinacionais é aprender a adaptar constantemente

A experiência internacional de Maria Rosa acabou por surgir várias vezes ao longo da conversa. Falou das diferenças culturais entre países, da forma como diferentes equipas comunicam, tomam decisões ou lidam com a hierarquia, planeamento e consenso.

Referiu, por exemplo, o pragmatismo e a transparência das culturas nórdicas, mas também a necessidade de adaptar processos e expectativas consoante o contexto de cada país.

Ao mesmo tempo, explicou que trabalhar em estruturas multinacionais obriga a desenvolver capacidade de adaptação permanente:
nem sempre as mesmas soluções funcionam da mesma forma em geografias diferentes.

E isso aplica-se tanto à gestão de equipas como à própria organização do espaço.

Workplace strategy já não é apenas uma questão de arquitetura

Outro ponto particularmente interessante da tertúlia foi a forma como workplace strategy deixou de estar ligada apenas ao desenho físico do escritório.

Hoje, explicou Maria Rosa Abeijon, pensar um espaço implica pensar como as pessoas colaboram, comunicam, tomam decisões e como a cultura da empresa se materializa no dia a dia.

Isso altera completamente a lógica dos projetos, porque já não basta desenhar espaços eficientes ou visualmente apelativos, é preciso criar ambientes que façam sentido para a forma como as equipas realmente trabalham.

Espaços diferentes para formas de trabalho diferentes

Ao longo da conversa, ficou também clara a ideia de que os escritórios estão a tornar-se muito mais flexíveis e menos padronizados.

Em vez de espaços rígidos e uniformes, as empresas procuram hoje criar ambientes adaptados a diferentes necessidades, com zonas de colaboração, concentração, reuniões, trabalho informal ou interação entre equipas.

Esta mudança, explicou, obriga também a repensar a relação entre arquitetura, operação, tecnologia e gestão. Isto, porque o espaço deixou de ser apenas infraestrutura, para se tornar numa ferramenta ativa de trabalho, cultura e decisão.

Uma conversa sobre escritórios… que afinal era sobre pessoas, e o papel da gestão de projetos numa transformação que já não é apenas física

O mais interessante desta tertúlia foi talvez perceber que, apesar de se falar de real estate corporativo, escritórios e workplace, a conversa acabou constantemente por regressar às pessoas, nomeadamente à forma como trabalham, comunicam, resistem à mudança e respondem à necessidade de colaboração.

No global, existe uma maior dificuldade em desenhar organizações, e espaços, num momento em que a própria ideia de trabalho continua em transformação.

Ao longo da tertúlia, tornou-se evidente que muitos dos desafios atuais dos projetos passam pela coordenação entre equipas, pela gestão da mudança e pela capacidade de alinhar diferentes especialidades, culturas e expectativas em torno do mesmo objetivo.

Talvez porque, no fundo, esta não tenha sido apenas uma conversa sobre escritórios. E é precisamente por isso que:

É muito bom ouvir pessoas inteligentes a pensar!

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